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sexta-feira, 19 de junho de 2026

SAIU NA FOLHA DE SÃO PAULO

 
 WALDEMAR MAGALDI FILHO

Bets e dízimo a igrejas moem pobres com fantasia de salvação mágica

  • Arquétipo do vigarista que seduz com promessas cintilantes e esvazia bolsos e almas inspira ambos os sistemas
  • Indivíduo esmagado por desigualdades projeta no líder religioso ou na roleta virtual ideia de resgate fantástico
  • Waldemar Magaldi Filho
    Waldemar Magaldi Filho

    Analista junguiano, mestre e doutor em ciências da religião e fundador do IJEP (Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa). Autor de "Dinheiro, Saúde e Sagrado"

No grande teatro da miséria humana, a esperança é a moeda de troca mais valiosa. O desespero, por sua vez, funciona como o ingresso VIP para um espetáculo de ilusões.

Nesse palco, atualmente no nosso país, operam duas máquinas implacáveis de moer pobre. Elas vestem fantasias distintas para encenar a mesma tragicomédia. De um lado, temos o dízimo cobrado sob a ameaça do fogo eterno e a promessa de um paraíso financeiro. Do outro lado, brilham os sites de apostas, as famosas bets, que acenam com a riqueza instantânea a um clique de distância.

A imagem apresenta uma ilustração estilizada de uma pessoa sentada em uma rocha, com um fundo noturno. A figura tem cabelo vermelho e veste uma roupa laranja, enquanto observa o céu. O céu é predominantemente azul escuro, com nuvens em diferentes tons de azul e uma lua crescente amarela visível. A rocha em que a pessoa está sentada é de cor escura, e a cena transmite uma sensação de contemplação e tranquilidade.
É urgente acabar com a farra da isenção fiscal para templos e impor limites draconianos às casas de apostas, escreve autor -  Catarina Pignato 

Ambos os sistemas são exploradores da fé e da agonia. Eles operam sob a batuta do arquétipo do Trickster: malandro, embusteiro, vigarista e enganador. Esse trapaceiro mítico e zombeteiro nos seduz com promessas cintilantes para esvaziar os nossos bolsos e as nossas almas no apagar das luzes. É fascinante observar como os mecanismos de transferência de renda dos mais vulneráveis para os mais espertos são idênticos.

Vendem-se promessas sem qualquer garantia. Pode ser o milagre divino inquestionável ou o sorteio cego do algoritmo. O apelo emocional é sempre covarde e fisga o indivíduo pela jugular do sonho. Quem lucra de verdade são lideranças que vivem do suor alheio. Elas desfilam em jatinhos e carros de luxo e transformam o altar e a internet em palcos lucrativos. Podem ser pastores com suas roupas, relógios e carros de luxo e cintilantes ou influenciadores digitais ostentando desde a camisa do seu time do coração até jatinhos e iates caríssimos.

Quando a promessa falha, a isenção de responsabilidade é imediata e cínica. Para a igreja, a desculpa é a vontade de Deus ou a falta de fé do irmão. Para a plataforma de apostas, a justificativa é a falta de sorte naquela noite. Os números dessa falsa alquimia são estarrecedores e pintam um retrato sombrio do nosso Brasil.

Em 2025, o mercado legal de apostas online atraiu mais de 25 milhões de brasileiros e teve uma receita bruta absurda de R$ 37 bilhões. Do outro lado do balcão da fé, as cifras também assustam. Investigações apontaram que apenas a Igreja Universal do Reino de Deus movimentou cerca de R$ 42 bilhões em doações bancárias em um período de quatro anos e meio.

Não é por acaso que o Censo de 2022 revelou que o Brasil possui mais de 579 mil estabelecimentos religiosos. Esse número supera com folga a soma de todas as escolas e hospitais do país. Sob a lente da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, percebemos a gravidade do fenômeno. Tanto o templo quanto o aplicativo funcionam como telas em branco para a projeção da nossa Sombra e do nosso anseio inato por salvação.

O indivíduo esmagado pela desigualdade e pela falta de perspectiva projeta no líder religioso ou na roleta virtual a figura do salvador mágico. Ele abdica da sua autonomia e do seu poder de agência.

Somos confrontados com a figura do Puer Aeternus. Essa criança eterna dentro de nós que recusa o trabalho árduo da realidade e implora por um resgate fantástico. As bets e a teologia da prosperidade alimentam essa fantasia infantil. Elas oferecem uma alquimia corrompida que promete transformar o chumbo do sofrimento diário no ouro da riqueza instantânea.

O resultado físico e simbólico dessa exploração é percebido pela quantidade de sintomas mentais e, consequentemente, físicos. Os corpos adoecem pela ansiedade crônica da aposta perdida. Os estômagos são corroídos pela culpa religiosa asfixiante. As mentes se fragmentam pelo endividamento, e as famílias se rompem em silêncio. Afinal, quem não aposta é excluído da roda de amigos modernos e quem não devolve o dízimo é expulso do rebanho sagrado. A exploração é normalizada sob o disfarce perverso de ajuda ou entretenimento.

Chegamos então ao ápice da hipocrisia estrutural. O mesmo fiel que condena a aposta como um jogo de azar pecaminoso senta-se na primeira fileira do culto da prosperidade. Ele espera que os seus R$ 50 se multipliquem magicamente por obra do Espírito Santo. Um deposita na conta do pastor pela promessa de cura e riqueza. O outro deposita no site sediado em um paraíso fiscal pela promessa de retorno financeiro imediato.

Ambos saem mais pobres e sangrados por uma indústria do vício. Essa máquina usa algoritmos e bônus de boas-vindas ou se blinda com isenções fiscais e absoluta falta de transparência. A igreja na sua defesa ainda oferece o amparo social de uma cesta básica e o calor de uma oração compartilhada. A plataforma de apostas te deixa apenas com o brilho frio da tela do celular na madrugada.

A diferença real é que uma usa Deus como fiador inquestionável da ilusão e a outra usa o acaso matemático. A saída para esse labirinto não é escolher qual explorador tem a melhor lábia ou a melhor interface. O buraco é muito mais profundo. O problema central não é a dicotomia entre igreja e aposta. A verdadeira engrenagem é um país profundamente desigual e carente de educação financeira e de letramento teológico.

É preciso dizer que Malaquias 3:10 nunca foi um recibo de depósito bancário com garantia de salvação e prosperidade, apesar da ameaça de que reter os recursos de dízimos e oferendas equivale a roubar a Deus. Precisamos de reflexão crítica e de uma regulação séria. É urgente acabar com a farra da isenção fiscal para templos que operam como corporações financeiras. Também é fundamental impor limites draconianos às casas de apostas que lucram com o vício.

A pergunta que deveria ecoar na nossa autoconsciência não é a quem devemos entregar o nosso dinheiro suado. A verdadeira questão é: por que tantos brasileiros ainda precisam acreditar, desesperadamente, em milagres financeiros comprados a prestação?

Enquanto não tivermos educação universal e de qualidade que incentive o pensamento crítico, o autoconhecimento e a autonomia e enquanto não houver salários dignos e uma distribuição de renda menos criminosa, os mercadores de ilusão continuarão prosperando. Enquanto escolas e hospitais perderem de goleada para templos e cassinos virtuais, sempre haverá um espertalhão vendendo um pedaço do céu para quem já vive no inferno da sobrevivência diária. 

JUSTIÇA ITALIANA CONDENA MULHER POR ATROPELAMENTO VOLUNTÁRIO


A Justiça italiana condenou a empresária e socialite italiana Cinzia Dal Pino, de 67 anos, a 18 anos de prisão pela morte de Noureddine Mezgui, de 52 anos, após um atropelamento ocorrido em setembro de 2024, em Viareggio, na Itália. O caso ganhou repercussão internacional depois que câmeras de segurança registraram a perseguição e o atropelamento. Segundo a investigação, Noureddine roubou a bolsa da empresária quando ela saía de um restaurante. No acessório estavam documentos, chaves e o celular da vítima. Sem conseguir acionar a polícia, Cinzia decidiu perseguir o suspeito com seu carro. Ao localizá-lo, ela o atropelou. As imagens mostraram que, mesmo após a queda do homem, o veículo passou sobre seu corpo mais de uma vez. Depois de recuperar a bolsa, a empresária deixou o local sem prestar socorro. Noureddine foi levado ao hospital, mas morreu em consequência dos ferimentos. Durante o julgamento, a defesa alegou que a acusada havia sido ameaçada com uma faca durante o assalto e agiu sob forte abalo emocional. Contudo, a polícia não encontrou nenhuma arma com a vítima. 

Os promotores descartaram a tese de legítima defesa, afirmando que o suspeito estava em fuga e não representava risco imediato à empresária no momento do atropelamento. Para a acusação, o crime foi motivado por vingança e caracterizou uma forma de “justiça privada”. Os juízes concluíram que houve homicídio voluntário doloso, reconhecendo a intenção de matar. Embora os promotores tenham pedido prisão perpétua, a pena foi fixada em 18 anos. A Justiça autorizou que Cinzia cumpra inicialmente a condenação em prisão domiciliar, com monitoramento por tornozeleira eletrônica. A defesa informou que recorrerá da decisão, sustentando que a empresária não tinha intenção de matar e apenas reagiu ao assalto. A Justiça, porém, entendeu que a perseguição e o atropelamento ultrapassaram os limites da legítima defesa.

 

MAIS DE 8 MILHÕES AINDA NÃO SABEM LER E ESCREVER


O Brasil registrou nova queda na taxa de analfabetismo e, pela primeira vez, ficou abaixo de 5% entre pessoas com 15 anos ou mais. Segundo a Pnad Contínua 2025, divulgada pelo IBGE, 8,4 milhões de brasileiros ainda não sabem ler e escrever. 
A taxa nacional caiu para 4,9%, ante 6,7% em 2016, reduzindo o número de analfabetos de 10,6 milhões para 8,4 milhões. Em relação a 2024, a queda foi de 0,4 ponto percentual, o equivalente a cerca de 592 mil pessoas. O Nordeste concentra 57,4% dos analfabetos do país, com 4,8 milhões de pessoas, embora reúna apenas 26,5% da população brasileira. Em seguida aparecem Sudeste (20,4%), Sul (14,8%), Norte (8,2%) e Centro-Oeste (7,9%). Segundo o IBGE, todos os estados reduziram o analfabetismo desde 2016, exceto o Amapá. Alagoas e Piauí seguem com os índices mais elevados. O problema afeta principalmente os idosos. Entre pessoas com mais de 60 anos, a taxa é de 13,8%, embora tenha recuado de 20,5% em 2016. Esse grupo representa 58% dos analfabetos do país, cerca de 4,8 milhões de pessoas.

Pela primeira vez, a taxa entre mulheres idosas (13,7%) ficou abaixo da observada entre homens (14,1%), indicando avanços na escolarização feminina. Já a desigualdade racial permanece: entre idosos, a taxa de analfabetismo de pretos e pardos é quase três vezes superior à de brancos. Apesar da redução do analfabetismo, as matrículas na Educação de Jovens e Adultos (EJA) atingiram o menor nível desde 1996, mesmo sendo uma modalidade obrigatória pela Constituição. A pesquisa também mostra avanço educacional. A parcela de pessoas com 25 anos ou mais que concluíram ao menos o ensino médio subiu de 46% em 2016 para 57,4% em 2025. Entre mulheres, o índice é de 59,4%; entre homens, 55,2%. Entre brancos, 64,9% concluíram a educação básica, contra 51,3% de pretos e pardos. Ainda assim, é a primeira vez que mais da metade da população preta e parda completa essa etapa. A média de anos de estudo chegou a 10,2 anos, ante 9,1 em 2016. A proporção de adultos com ensino superior completo também cresceu, passando de 15,4% para 21,4% no período.

 

TRUMP NÃO OBTEVE ÊXITO BUSCADO NO ACORDO COM IRÃ


Com o acordo de paz entre Estados Unidos e Irã firmado e seus primeiros detalhes divulgados na quarta-feira (17), cresce entre analistas a avaliação de que Donald Trump encerrou o conflito em posição estratégica menos favorável do que a que tinha no início. Pelo entendimento, Washington aceitou um plano de US$ 300 bilhões para a reconstrução do Irã, o fim das sanções e a liberação de ativos congelados. Em troca, Teerã reabrirá o estreito de Hormuz e retomará negociações sobre seu programa nuclear. Especialistas apontam que as concessões superam as feitas no acordo nuclear firmado por Barack Obama em 2015. Para Vinícius Mariano de Carvalho, professor do King's College de Londres, o pacto anterior tinha condições mais vantajosas para os EUA. Segundo ele, Trump tende a priorizar a própria narrativa política ao justificar o acordo. O pesquisador afirma que ainda é cedo para medir os efeitos internos da guerra no Irã, mas considera que o país obteve êxito militar ao resistir a ataques diretos americanos e demonstrar capacidade de controlar o estreito de Hormuz.

Carvalho destaca que Teerã adotou uma estratégia de “defesa de negação”, elevando o custo de uma ofensiva americana por meio do uso de drones e sistemas não tripulados de baixo custo. Segundo ele, a tática tornou arriscado o emprego de grandes meios navais dos EUA, como porta-aviões, diante da possibilidade de ataques massivos. O professor compara o episódio a intervenções anteriores dos EUA no Oriente Médio, como a do Afeganistão, marcadas pela subestimação da capacidade de resistência dos adversários. Sobre o Brasil, Carvalho afirma que a tradição diplomática de neutralidade poderá ser pressionada por impactos globais em comércio, negócios e fluxos de informação, levando o país a assumir posições em futuros conflitos.

TRUMP DESAFIA O JUDICIÁRIO


O Departamento de Estado do governo Donald Trump criticou a condenação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro pelo STF. Em nota enviada à imprensa, um porta-voz afirmou que o caso representa mais um episódio de “perseguição” e de uso político da Justiça brasileira contra adversários políticos. Eduardo foi condenado por unanimidade pela Primeira Turma do STF por coação no curso do processo. A Corte entendeu que ele atuou nos Estados Unidos para pressionar o Judiciário brasileiro e tentar impedir o andamento das investigações sobre a trama golpista. O governo americano declarou ainda que disputas políticas devem ser resolvidas por meio de eleições, e não por condenações judiciais. A pena imposta ao ex-deputado é de quatro anos e dois meses de prisão em regime semiaberto, multa de R$ 150 mil, perda do cargo de escrivão da Polícia Federal e inelegibilidade por oito anos.

Na quarta-feira (17), Trump também comentou o caso durante o G7. O republicano afirmou ter ouvido que “Bolsonaro Jr.” havia sido preso ou poderia ser preso, embora tenha confundido detalhes da condenação. Trump disse que Eduardo estava bem nas pesquisas e criticou a atuação das autoridades brasileiras, classificando-a como excessivamente rigorosa. Em resposta, o presidente Lula afirmou que Trump tem o direito de manter preferência pela família Bolsonaro, mas disse que o americano desconhece a realidade brasileira e pediu respeito à soberania nacional. Lula e Trump se encontraram brevemente durante o G7, mas não realizaram reunião bilateral. Paralelamente, Brasil e Estados Unidos enfrentam dificuldades nas negociações para evitar novas tarifas comerciais, que envolvem temas como o Pix, a regulação das big techs e outras disputas econômicas.