Em abril, o livreiro Marçal Font, da Livraria Fénix, na Espanha, recebeu pedidos incomuns de livros antigos. As encomendas vinham do Canadá e reuniam muitos exemplares em intervalos curtos, com custos de envio considerados absurdos. Font e o pesquisador de IA Xavier Vinaixa suspeitaram de fraude e começaram a investigar, chegando a conclusão de relatos semelhantes de livreiros na Alemanha, Nova Zelândia e Austrália. As compras estariam relacionadas ao chamado “Projeto Panamá”, ligado à digitalização de livros para treinamento de inteligência artificial. Em 2025, a Anthropic concordou em pagar US$ 1,5 bilhão para encerrar uma ação de autores que alegavam uso não autorizado de suas obras. Documentos judiciais mencionaram um plano para escanear livros de forma destrutiva, sem tornar pública a operação. O processo envolve cortar a lombada, separar as páginas e submetê-las a escâneres industriais de alta velocidade. Depois da digitalização, os exemplares não podem ser reconstruídos e geralmente são encaminhados para reciclagem. A técnica é usada por permitir digitalizar milhões de livros mais rapidamente e a menor custo. O objetivo principal seria alimentar grandes modelos de linguagem, como o ChatGPT, com novos dados para treinamento. Inicialmente, as IAs utilizaram conteúdos disponíveis na internet, como Wikipédia, blogs, fóruns e vídeos. Com a escassez de novos dados, empresas passaram a buscar jornais, bibliotecas e livros antigos. Livrarias de usados e antiquários tornaram-se fontes importantes de obras raras ou pouco comerciais. Entre os pedidos recebidos por Font havia livros sobre temas específicos, como a história dos embutidos catalães. A prática, porém, provoca preocupação entre especialistas em preservação do patrimônio cultural, situando o risco maior na destruição de exemplares raros, únicos ou de tiragens limitadas. Font considera que destruir um exemplar pode ser aceitável quando existem outros preservados e o conteúdo é transferido para outro formato.
Sua principal preocupação é que obras sem ISBN, como fanzines, textos de contracultura e materiais políticos, sejam ignoradas. Esses documentos podem conter informações importantes para compreender movimentos sociais e culturais do passado. Especialistas também alertam que digitalizar um livro não significa necessariamente conservá-lo. Um arquivo digital pode ficar em bases privadas, inacessíveis a leitores, bibliotecas e pesquisadores e a digitalização pode eliminar características como encadernação, anotações, ilustrações, impressão e procedência. Esses elementos são considerados metadados fundamentais para interpretar corretamente uma obra. Como alternativa, Font e Vinaixa defendem que os próprios livreiros digitalizem e preservem seu patrimônio. Os dados poderiam então ser licenciados às empresas de inteligência artificial, mantendo os livros originais. A discussão também envolve o futuro da própria IA diante da possível escassez de dados produzidos por humanos. Uma alternativa seria utilizar dados sintéticos, criados pelas próprias inteligências artificiais. Especialistas alertam que treinar IAs com conteúdos gerados por outras IAs pode multiplicar erros. O resultado poderia ser uma espécie de “resumo do resumo”, cada vez mais distante das fontes originais. Na Livraria Fénix, as encomendas continuaram, com mudanças na logística e novos destinos na Europa. Após um mês sem pedidos, Font recebeu uma nova encomenda nesta semana. Para o livreiro, o episódio indica que o chamado “Projeto Panamá” continua em andamento.
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