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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

VIDA SEM AMIGOS OU COMPANHIA CONSTANTE


É sexta-feira à noite. Uma jovem chega ao apartamento, prepara uma pizza congelada, acende uma vela e janta sozinha diante da TV. 
A cena, publicada no TikTok, viralizou e já soma milhões de visualizações. No vídeo está Lana Isa, gerente de vendas de software que mora em Toronto, no Canadá. Com quase 400 mil seguidores, ela compartilha rotinas de autocuidado e momentos de sua vida solitária. Isa faz parte de um grupo crescente de criadoras que mostram nas redes uma vida sem amigos ou companhia constante. Para elas, estar sozinha pode significar paz, independência e liberdade, e não necessariamente tristeza. Isa diz que vive sem amigos próximos há anos, após mudanças de escola, a pandemia e uma mudança de cidade. Ao falar abertamente sobre sua situação, descobriu milhares de pessoas que enfrentavam experiências semelhantes. Seus primeiros 2.000 seguidores cresceram para mais de 175 mil em apenas oito meses. Nos comentários, muitos usuários relatam morar sozinhos e não ter amigos, encontrando conforto ao se sentirem representados. A popularidade, porém, também trouxe críticas às chamadas "influenciadoras da solidão". Alguns acusam essas mulheres de romantizar o isolamento e estimular uma postura de conformismo. Outras criadoras rejeitam a ideia de que estar sozinha seja sinônimo de solidão ou infelicidade. Devon Noehring, do Arizona, afirma que gosta de passar os fins de semana sozinha, cozinhando e descansando com seu cachorro. Para ela, a solidão voluntária permite recarregar as energias e reforça sua independência. Pesquisadores também diferenciam a solidão escolhida daquela provocada por isolamento involuntário.

A epidemiologista Melody Ding, da Universidade de Sydney, afirma que todos podem se sentir sozinhos em algum momento. Ela alerta, porém, que o isolamento intenso pode prejudicar a saúde mental e física. Segundo Ding, seres humanos são sociais e precisam de conexões positivas e significativas. As próprias criadoras dizem que não pretendem permanecer sem amigos para sempre. SJ Hoadley, do Reino Unido, começou a mostrar sua rotina após sair de um relacionamento abusivo e mudar de cidade. Ela afirma ter aprendido a apreciar a independência e a própria companhia. Para especialistas, esse conteúdo também funciona como reação à cultura de vidas perfeitas exibidas nas redes. A pesquisadora Anne Oeldorf-Hirsch vê nesses influenciadores uma busca por autenticidade e identificação. Em vez de alimentar o medo de ficar de fora, os vídeos mostram experiências mais comuns e realistas.
Hoadley ganhou dezenas de milhares de seguidores, enquanto Noehring acumulou milhões de visualizações. As conexões virtuais, para elas, podem inclusive abrir caminho para novas amizades no mundo real. Isa afirma que o apoio recebido a incentivou a pensar em construir novos vínculos. A mensagem central dessas criadoras é que não existe uma única maneira correta de viver. Estar sozinho pode ser uma escolha, uma fase ou uma circunstância, mas não precisa definir toda a vida. 

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