A expansão da inteligência artificial ameaça transformar a tradução literária em uma atividade automatizada, orientada pela redução de custos e pela rapidez. O autor defende que traduzir é uma arte, retomando a ideia de Italo Calvino de que o tradutor busca transmitir aquilo que há de intraduzível em cada língua. O texto critica a invisibilidade dos tradutores, frequentemente ignorados por leitores, influenciadores, editoras e instituições públicas. Como exemplo, cita o programa MEC Livros, que muitas vezes não informa os nomes dos responsáveis pelas traduções. A tradução é apresentada como uma ponte entre culturas, essencial para ampliar horizontes, combater o isolamento cultural e enfrentar discursos autoritários e nacionalistas. Nesse contexto, são lembrados pensadores e tradutores como Cesare Pavese, Paulo Rónai e Giorgio Agamben, que destacaram a importância cultural, política e artística da atividade.
O autor também questiona o crescimento das traduções indiretas e do uso da IA em obras literárias, alertando para possíveis perdas de qualidade, diversidade linguística e profundidade interpretativa. Embora reconheça os benefícios das novas tecnologias, defende que elas sejam utilizadas com cautela e não substituam o trabalho criativo dos tradutores. Por fim, argumenta que preservar a tradução como arte é uma forma de resistência à lógica do mercado, que privilegia velocidade, inovação e lucro. Valorizar os tradutores significa defender o diálogo entre culturas, a diversidade de vozes e a capacidade humana de interpretar e recriar sentidos além do alcance das máquinas.