A inteligência artificial está transformando também a forma como as religiões preservam e difundem seus ensinamentos. A startup católica Longbeard usa robôs para digitalizar livros, manuscritos e textos religiosos antigos. O material alimenta o Magisterium AI, chatbot que reúne doutrina e estudos católicos e atende usuários em 190 países. A tecnologia desperta interesse, mas também preocupação entre líderes religiosos. O temor é que modelos desenvolvidos por empresas seculares enfraqueçam a influência das religiões. O papa Leão 14 afirmou que a tecnologia não é neutra e reflete quem a cria, financia e utiliza. Religiosos também discutem o uso da IA na preparação de sermões e materiais de ensino. Algumas tradições alertam para erros e citações incorretas das escrituras produzidos por sistemas de IA. Outra preocupação é a mudança na relação entre clérigos e fiéis. Chatbots podem oferecer aconselhamento religioso e estimular práticas mais individualizadas. Segundo dados da CEFE AI, consultas religiosas representam cerca de 5% das conversas analisadas com chatbots. Estudos indicam ainda que os principais modelos apresentam forte tendência secular. Em 27 modelos analisados, a religião apareceu em apenas 5% a 16% das respostas sobre questões pessoais e éticas. Para líderes religiosos, isso pode afastar pessoas de padres, rabinos, imãs e outras autoridades espirituais.
Há também receio de que o excesso de conforto oferecido pela IA reduza a capacidade de lidar com sofrimento e conflitos. Por isso, grupos religiosos tentam participar do desenvolvimento e da definição dos valores dos modelos. Empresas ligadas a religiões criam sistemas com mecanismos de alinhamento teológico e controle de conteúdo. A Anthropic mantém encontros com representantes de diferentes tradições para discutir formação moral e pluralismo. A Igreja Católica também estreitou relações com laboratórios de inteligência artificial. Ao mesmo tempo, surgem chatbots religiosos específicos, como GitaGPT e Salaam World. Alguns governos também desenvolvem modelos que incorporam valores religiosos. O Catar apoia o Fanar, voltado ao árabe e aos princípios islâmicos. Em Taiwan, assembleias discutem como a IA deve se comportar e influenciam modelos locais. Apesar dos receios, religiosos também veem oportunidades no uso da tecnologia. Pastores utilizam IA para pesquisas e tarefas administrativas, liberando tempo para o trabalho pastoral. Alguns criaram versões digitais treinadas com seus próprios sermões. A Longbeard desenvolveu o Ephrem, que cria planos de vida inspirados nas histórias dos santos. Especialistas avaliam que o trabalho pastoral continuará menos ameaçado, pois envolve relações humanas e rituais. Casamentos, funerais e batismos dificilmente serão substituídos por chatbots. Com o aumento do isolamento e do tempo passado online, atividades religiosas presenciais podem até ganhar importância. O desafio será equilibrar os benefícios da inteligência artificial com a preservação das relações humanas e da experiência espiritual.
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