O Talibã retomou o controle do Afeganistão há cinco anos, após duas décadas, e restabeleceu um regime islâmico que restringe severamente os direitos das mulheres. Desde então, mulheres e meninas foram progressivamente excluídas da vida pública, em um processo considerado sem precedentes na história moderna. Mais de 160 decretos limitaram seus direitos, proibindo o acesso ao ensino médio e superior e restringindo trabalho, circulação, vestimentas e liberdade de expressão. A ONU Mulheres alerta que as medidas afetam aproximadamente metade da população e podem comprometer o futuro do país por décadas. Um relatório da organização, baseado em entrevistas com cerca de 5.000 afegãos, revela forte deterioração das condições de vida das mulheres. Enquanto 55% dos homens disseram estar vivendo pior do que esperavam, o índice chegou a 65% entre as mulheres. Os homens apontaram principalmente dificuldades econômicas, enquanto as mulheres destacaram a perda de acesso à educação e ao trabalho. A maioria das entrevistadas relatou aumento do estresse, preocupação e pressão, sinais associados à deterioração da saúde mental. Cerca de 90% disseram precisar da autorização de um homem da família para sair de casa. Mais da metade afirmou sair apenas uma ou duas vezes por mês, enquanto mais de 95% dos homens disseram sair diariamente. A pressão para cumprir as regras também aumentou dentro das próprias comunidades.
Quase 40% das mulheres entrevistadas disseram sofrer mais pressão para adequar seu comportamento por medo de denúncias. Especialistas afirmam que o Talibã transformou normas patriarcais em obrigações legais e passou a envolver famílias na fiscalização das mulheres. O Afeganistão é atualmente o único país do mundo que proíbe formalmente meninas e mulheres de estudar além do ensino primário. A exclusão prolongada da educação e da vida pública aumenta a defasagem e reduz as perspectivas de recuperação social e econômica. A Unesco pediu a restauração plena do direito à educação para meninas e mulheres afegãs. Especialistas alertam que uma geração inteira pode crescer sem oportunidades educacionais e profissionais. Para ativistas, por trás de cada decreto existem histórias de estudantes, professoras, juízas, médicas e empreendedoras impedidas de exercer suas atividades. A advogada de direitos humanos Belquis Ahmadi defende maior pressão internacional contra as restrições. Segundo ela, o problema não é apenas o apagamento de milhões de mulheres e meninas da vida pública. O risco maior, afirma, é que o mundo se acostume gradualmente com essa realidade. Cinco anos após o retorno do Talibã, a situação das mulheres permanece entre as maiores crises de direitos humanos do Afeganistão.
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