O Canadá enfrenta uma crescente disputa comercial com os Estados Unidos, seu principal parceiro econômico, para onde destina cerca de 70% de suas exportações. Apesar da forte dependência, o governo do primeiro-ministro Mark Carney possui instrumentos para pressionar Washington. O Canadá é o principal cliente de 26 estados americanos e está entre os três maiores compradores de outros 45 estados. Carney prepara tarifas de retaliação equivalentes às aplicadas pelos EUA, atingindo aço, laticínios, eletrodomésticos, equipamentos agrícolas, eletrônicos, celulose e papel. Atualmente, os Estados Unidos mantêm tarifas de até 50% sobre produtos canadenses. A população canadense, porém, demonstra amplo apoio a uma postura firme diante de Donald Trump. Uma das principais armas de Ottawa está no setor de energia e minerais estratégicos. O Canadá fornece a maior parte do gás natural e da eletricidade importados pelos EUA e cerca de 60% do petróleo bruto. O país também é grande fornecedor de potássio, usado na produção de fertilizantes, além de possuir reservas de lítio, níquel e grafite. Autoridades canadenses não descartam utilizar energia e minerais como instrumentos de pressão. Outra forma de retaliação está no poder de compra dos consumidores canadenses. Províncias do país já restringiram a venda de bebidas alcoólicas americanas em resposta às tarifas de Washington.
As exportações de vinho dos EUA para o Canadá caíram 78%, representando perda de US$ 357 milhões. As vendas de destilados americanos também recuaram mais de 70%. O boicote permanece em vigor em 11 das 13 províncias e territórios canadenses. Além disso, muitos canadenses reduziram viagens aos Estados Unidos. No ano passado, o boicote às viagens provocou perdas estimadas em C$ 3,3 bilhões para a economia americana. A disputa também tem forte dimensão política nos dois países. Pesquisas indicam que 76% dos canadenses apoiam a decisão de Ottawa de abandonar as negociações comerciais. Carney argumenta que as tarifas também prejudicarão trabalhadores e consumidores americanos. Estados como Michigan e Maine, próximos ao Canadá, têm forte relação comercial com o vizinho. Essas regiões podem sentir os efeitos de uma redução das exportações canadenses. O aumento das tarifas também tende a elevar os preços de produtos consumidos pelos americanos. Entre eles estão materiais de construção, madeira, flores, equipamentos e componentes automotivos. O governo canadense avalia novas medidas para proteger empresas e trabalhadores. Lideranças provinciais defendem uma reação firme às ameaças de Trump. O primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, é um dos principais críticos da política comercial americana. Ele chegou a defender medidas direcionadas contra estados republicanos. A disputa ocorre em um momento de preocupação com a economia americana e com as próximas eleições legislativas. Assim, embora o Canadá dependa fortemente dos Estados Unidos, possui recursos estratégicos e poder de consumo capazes de elevar o custo da guerra comercial para Washington.
Nenhum comentário:
Postar um comentário