Bancos e escritórios de advocacia reforçam equipes para lidar com empresas em dificuldades financeiras. A alta dos juros e a onda de recuperações judiciais e extrajudiciais devem manter o mercado aquecido até 2027. No Santander, a equipe que atende empresas com faturamento acima de R$ 80 milhões passou de 13 para 33 pessoas. O banco acompanha atualmente cerca de 1.500 empresas em dificuldades financeiras. Entre elas estão companhias de saúde, incorporadoras, varejo e agronegócio. Essas áreas são conhecidas nos bancos como “UTI do crédito”, por concentrarem clientes com problemas financeiros. O objetivo é agir preventivamente para evitar atrasos maiores, falências e pedidos de recuperação. Segundo o Santander, a situação financeira difícil já está disseminada por diversos setores. Outro grande banco manteve equipe com mais de cem profissionais, mas incorporou inteligência artificial e análise de dados. As ferramentas ajudam a identificar com maior precisão a situação financeira das empresas. O banco também monitora o patrimônio dos controladores para facilitar eventuais ações de cobrança. Dados da RGF Associados mostram 6.341 empresas em recuperação judicial no fim de junho. O número representa crescimento de 21,2% em 12 meses. Na recuperação extrajudicial, havia 346 empresas, alta de 38,4%, das quais a maior é da Raízen, com mais de R$ 61 bilhões em dívidas.
Neste ano, Braskem e Casas Bahia também entraram com pedidos de recuperação. A Braskem possui cerca de R$ 56 bilhões em dívidas, enquanto a Casas Bahia soma R$ 17,3 bilhões. Consultorias e escritórios também ampliam suas equipes para atender a demanda. A Exon Partners, criada em 2025, já possui sete mandatos que envolvem R$ 4 bilhões em passivos. Para especialistas, a recuperação judicial deve ser iniciada antes que a situação financeira se torne irreversível. Os casos atuais não têm um único gatilho, diferentemente de crises anteriores, como a Lava Jato. Apesar dos juros altos agravarem os problemas, cada setor apresenta dificuldades específicas. O escritório Mattos Filho registra volume histórico de trabalho em reestruturação e insolvência. A área, antes considerada cíclica, passou a apresentar demanda mais constante. Bancos também se preparam para perdas, provisionando recursos e reduzindo sua exposição ao risco. Antes dos atrasos, sinais como queda de recebíveis e maior antecipação de crédito podem indicar deterioração. Instituições podem renegociar dívidas, cortar linhas de crédito ou vender carteiras problemáticas. Em casos como Raízen e Braskem, bancos negociam conjuntamente soluções antes da recuperação judicial. Mesmo com essas medidas, juros e inadimplência elevados podem restringir o crédito e ampliar novas recuperações.