Nas profundezas da Amazônia, a cassiterita, matéria-prima do estanho usado em microchips, inteligência artificial e tecnologias de transição energética, tornou-se alvo do crime organizado. Documentos da Operação Forja de Hefesto, da Polícia Federal, e investigações do MPF apontam que o minério extraído ilegalmente de terras protegidas abasteceu cadeias de grandes empresas globais. A brasileira White Solder, produtora de estanho, tornou-se ré sob acusação de participar de um esquema de receptação, refino e “esquentamento” de cassiterita.
Segundo as investigações, o esquema movimentou ao menos R$ 200 milhões entre 2020 e 2025. Apenas em 2021, mais de 525 toneladas teriam sido comercializadas ilegalmente. A cassiterita extraída da Terra Indígena Yanomami era misturada a minério legal de Rondônia e recebia documentação falsa para aparentar origem regular. A Coopertin, segundo o MPF, emitia guias e notas fiscais que simulavam a legalidade do minério. A White Solder teria respondido por 97,6% dos créditos da cooperativa em determinado período. Depois do refino, a transformação em lingotes eliminava características físicas que poderiam indicar a origem do material. O estanho refinado entrava, então, no mercado internacional acompanhado de documentos e certificações de conformidade. O MPF notificou dez multinacionais com atuação no Brasil por supostas falhas em mecanismos de verificação socioambiental e de direitos humanos. Entre as empresas citadas na investigação estão Apple, Microsoft, Amazon, Disney e Sony, além de Starbucks, Caterpillar e PepsiCo.
Os procuradores pedem indenizações que podem alcançar R$ 1,7 bilhão por danos ambientais, patrimoniais e morais coletivos. No território Yanomami, o garimpo utilizava escavadeiras, bombas, pistas clandestinas e logística própria de aviação. A exploração também deixou áreas de floresta destruídas e contaminadas pelo mercúrio utilizado no garimpo de ouro associado. Investigações apontam que a corrida pela cassiterita vem impulsionando novas invasões de áreas protegidas. Em Ariquemes (RO), centro operacional do esquema, a cassiterita ilegal era misturada a minério legal para receber um “passaporte limpo”. Perícias também encontraram barras de ouro ligadas ao grupo investigado e transportadas entre Roraima e Rondônia. A investigação revelou ainda a presença de minerais estratégicos nos rejeitos da produção de estanho. Foram identificados monazita, ilmenita e columbita, fontes de terras raras, nióbio e tântalo, materiais importantes para tecnologias avançadas. A cassiterita ganhou importância para o crime organizado por permitir exploração em escala industrial e comercialização contínua. O estanho é essencial para soldagem de microchips, servidores, sistemas de inteligência artificial e equipamentos ligados à transição energética. No Parque Nacional dos Campos Amazônicos, fiscalização encontrou acampamentos clandestinos, igarapés destruídos e 193 hectares de floresta devastados. Também foram identificadas 15 pistas de pouso ilegais no parque e em sua zona de amortecimento. O MPF afirma que a engrenagem investigada continua ativa e pediu medidas para obrigar as empresas a comprovar a origem do minério. Entre 2022 e 2024, a White Solder teria adquirido mais de 12 mil toneladas de cassiterita da cooperativa sem comprovação suficiente de origem. O Serviço Geológico do Brasil reconhece o potencial mineral de Rondônia, mas ainda não dispõe de estudos consolidados de rastreabilidade da cassiterita. Especialistas defendem a criação urgente de um sistema capaz de acompanhar o minério desde a extração até a transformação industrial. Segundo o procurador André Luiz Porreca, atualmente não existe no Brasil qualquer mecanismo nacional de rastreabilidade da cassiterita. A Agência Nacional de Mineração confirmou que não há sistema nacional capaz de acompanhar a cadeia do minério. O caso expõe a fragilidade dos controles e a conexão entre o garimpo ilegal na Amazônia e o mercado global de tecnologia.
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