Nos últimos meses, decisões de bancos centrais e fundos de pensão aumentaram as dúvidas sobre os EUA como porto seguro global. França e Holanda retiraram reservas de ouro dos Estados Unidos, enquanto o fundo soberano da Noruega quer reduzir títulos americanos. Os movimentos refletem uma crescente desconfiança na economia dos EUA, provocada por riscos fiscais e tensões geopolíticas, apesar de que durante décadas, os Estados Unidos foram considerados o principal porto seguro da economia mundial. A posição se apoia no tamanho da economia, no dólar como moeda de reserva e nos títulos do Tesouro, vistos como ativos seguros. Mas o endividamento americano tornou-se uma preocupação crescente entre investidores. No mês passado, a dívida dos EUA ultrapassou US$ 40 trilhões, maior nível já registrado. Segundo economistas, cerca de US$ 20 trilhões foram acumulados entre 2017 e 2026. O problema fiscal é agravado por medidas do governo Donald Trump. O “One Big Beautiful Bill” poderá elevar a dívida americana em mais de US$ 4 trilhões na próxima década. Trump também propôs um pagamento de US$ 5 mil a cada adulto americano se os republicanos vencerem as eleições de meio de mandato e essa medida poderia custar mais de US$ 1,3 trilhão aos cofres públicos. Com o aumento dos riscos, investidores passaram a exigir maior remuneração pelos títulos da dívida dos EUA e o rendimento do Treasury de dez anos está próximo de 5%, enquanto o de 30 anos chegou a 5,37%. Apesar disso, a perda de parte do status de porto seguro não significa uma crise iminente na economia americana.
Investimentos em inteligência artificial ajudam a sustentar a atividade econômica, com previsão de crescimento de 2% neste ano. Especialistas lembram que outros países desenvolvidos também enfrentam elevados níveis de dívida pública. Por isso, os EUA ainda são vistos como a economia com uma das posições relativamente mais sólidas. Entretanto, inflação acima da meta e economia aquecida podem levar o Federal Reserve a elevar novamente os juros. Taxas maiores aumentariam o custo de financiamento da dívida e pressionariam ainda mais as contas públicas. Além do problema fiscal, Trump ampliou a incerteza geopolítica com seu tarifaço e mudanças na política comercial. O presidente também provocou tensões com diversos países, inclusive aliados europeus. Um mapa divulgado por Trump mostrou EUA, México, Canadá, Cuba, Groenlândia e Islândia sob a bandeira americana. A questão da Groenlândia, pertencente à Dinamarca, também prejudicou as relações com a Europa. O cenário externo mais incerto afeta igualmente países emergentes, incluindo o Brasil. A alta dos juros dos Treasuries aumenta o custo para outras economias captarem recursos. No Brasil, a dívida bruta chegou a 82,5% do PIB em julho, nível elevado para um país emergente. O cenário reforça a necessidade de um ajuste fiscal brasileiro a partir do próximo ano. Um ambiente externo mais difícil pode limitar a queda dos juros no Brasil. Assim, embora os EUA ainda mantenham vantagens importantes, o aumento da dívida e das incertezas começa a abalar sua tradicional imagem de porto seguro.