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terça-feira, 27 de outubro de 2026

ESTUDANTES INSURGEM CONTRA AUTORIDADES E EM ELEIÇÃO DERROTA GOVERNO


A queda de uma cobertura de concreto na estação ferroviária de Novi Sad, na Sérvia, em novembro de 2024, matou 16 pessoas e desencadeou protestos contra a corrupção e a negligência das autoridades. Dois anos depois, o movimento estudantil derrotou nas urnas o Partido Progressista Sérvio, liderado por Aleksandar Vucic, que dominava a política nacional desde 2012. Nas eleições legislativas antecipadas de domingo, a Lista Estudantil obteve 52,7% dos votos, contra 39,2% do partido governista. A vitória provocou comemorações em Belgrado, Novi Sad e outras cidades, com milhares de manifestantes nas ruas. A tragédia ferroviária tornou-se símbolo das suspeitas de corrupção relacionadas à reforma da estação, projeto associado ao governo. Os protestos, inicialmente organizados por estudantes universitários, ganharam apoio de agricultores, artistas, juízes e outros setores da sociedade. O movimento adotou uma organização descentralizada, baseada em assembleias estudantis chamadas plenums. Em janeiro de 2025, a pressão levou à renúncia do então primeiro-ministro Milos Vucevic. Dois meses depois, Belgrado registrou o maior protesto antigovernamental da história do país. Com a convocação de eleições antecipadas, os estudantes estruturaram uma candidatura que reuniu representantes de diferentes áreas, sem apresentar universitários como candidatos. A estratégia buscou ampliar o apoio popular, incluindo médicos, professores, atores, atletas e acadêmicos. Entre os nomes escolhidos estavam o cardiologista Ilija Srdanovic, o ex-jogador de basquete Dejan Bodiroga e o ator Tihomir Stanic. Segundo projeções independentes, 140 integrantes da lista conquistaram cadeiras no Parlamento, que possui 250 vagas. A campanha apresentou um programa de 11 pontos, com medidas para combater a corrupção, reformar instituições públicas, afastar funcionários envolvidos em irregularidades e reduzir o controle político sobre a emissora pública. O movimento também pretende impedir indicações partidárias para a direção de empresas estatais.

Especialistas avaliaram que a eleição representou uma disputa sobre o futuro político da Sérvia e a defesa do Estado de Direito. A mobilização conseguiu reunir eleitores de diferentes posições políticas descontentes com o governo. Durante a campanha, Vucic passou de um discurso conciliador para acusações de que os manifestantes pretendiam derrubar o país. Ele negou as denúncias de corrupção e influência sobre a imprensa e, após reconhecer a derrota, afirmou, sem apresentar provas, que os estudantes receberam apoio de países europeus e dos Estados Unidos. O presidente, impedido de disputar um terceiro mandato, apoiou a campanha do partido governista para voltar ao cargo de primeiro-ministro. Prometeu aumentos de aposentadorias e salários públicos, além de investimentos na saúde. Na política externa, defendia a entrada da Sérvia na União Europeia, mas rejeitava sanções à Rússia pela invasão da Ucrânia. Com 97% das seções apuradas, a comissão eleitoral informou que a Lista Estudantil recebeu 2,25 milhões de votos, contra 1,67 milhão do partido de Vucic. O movimento enfrenta agora o desafio de transformar as promessas de campanha em políticas públicas. Uma das primeiras decisões da nova maioria será escolher o futuro primeiro-ministro. Vucic, por sua vez, afirmou que os estudantes seriam derrotados rapidamente e não indicou intenção de abandonar a política. As próximas eleições presidenciais estão previstas para dezembro. Para o professor de ciência política Nebojsa Vladisavljevic, da Universidade de Belgrado, o resultado representa uma transformação profunda no cenário político sérvio, após quase dois anos de mobilização popular. 

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