
A Índia intensifica sua aproximação com a América do Sul para garantir minerais essenciais à indústria e reduzir a dependência da China. O Brasil ocupa posição estratégica nesse movimento, graças às reservas de lítio, níquel, grafita, nióbio e terras raras. Esses minerais são fundamentais para baterias, veículos elétricos, turbinas, painéis solares, semicondutores e equipamentos militares. A China, porém, domina etapas importantes da produção mundial, especialmente o processamento de terras raras. Preocupada com os controles chineses sobre exportações e tecnologias, a Índia busca diversificar seus fornecedores. Em 2025, o governo de Narendra Modi criou a Missão Nacional de Minerais Críticos para ampliar a exploração, o processamento e a aquisição de jazidas no exterior. Até 2031, o país pretende realizar 1.200 projetos de pesquisa mineral e mobilizar cerca de US$ 4 bilhões para garantir pelo menos 50 ativos minerais estrangeiros. A estatal Kabil já avançou em projetos de lítio na Argentina. O Brasil aparece como próximo parceiro prioritário. Em fevereiro de 2026, durante visita de Estado de Luiz Inácio Lula da Silva à Índia, os dois países assinaram um memorando de cooperação em minerais críticos e terras raras, além de um acordo relacionado à mineração para a indústria siderúrgica. Nova Déli afirma que pretende investir no Brasil, transferir tecnologia e desenvolver o processamento local. O governo brasileiro, por sua vez, busca evitar que o país permaneça apenas como exportador de matérias-primas. Para os indianos, possuir reservas minerais não basta: é necessário transformar esses recursos em produtos industrializados, como baterias e componentes tecnológicos. O desafio é construir parcerias que beneficiem as duas economias. A cooperação bilateral já apresenta resultados em outros setores. Brasil e Índia mantêm acordos sobre etanol desde 2002 e ampliaram a colaboração em bioenergia em 2020. Em 2023, participaram da criação da Aliança Global para Biocombustíveis, ao lado dos Estados Unidos.
O etanol interessa à Índia por estimular a produção agrícola, reduzir emissões e diminuir a dependência do petróleo importado. A cooperação também abrange combustíveis sustentáveis para a aviação e outras fontes renováveis. Na indústria aeronáutica, a Embraer e a indiana Adani Defence & Aerospace anunciaram planos para instalar uma linha de montagem do jato regional E175 na Índia. O projeto prevê fornecedores, fabricação de componentes, serviços e treinamento de pilotos. A iniciativa está alinhada ao programa indiano “Make in India”, que busca ampliar a produção nacional e desenvolver capacidades tecnológicas. Minerais, biocombustíveis e aviões mostram que a relação entre os países vai além do comércio tradicional. A Índia procura matérias-primas e conhecimento industrial, enquanto o Brasil busca investimentos, tecnologia e maior valor agregado à sua produção. A distância geográfica não impede essa aproximação. Para Nova Déli, fortalecer parcerias com o Brasil tornou-se estratégico para garantir o abastecimento, ampliar a indústria e reduzir a dependência chinesa. Para os brasileiros, a oportunidade está em transformar recursos naturais em desenvolvimento industrial, empregos e renda.
Nenhum comentário:
Postar um comentário