"Se tentar beijar, pode ser acusado de assédio", dizem alguns. Comentários assim inundaram um vídeo do humorista Yuri Viana, 28, em que ele encena um encontro amoroso: enquanto ele fala sem parar, sem saber como agir, ela pensa: "Será que ele não vai me beijar? Estamos aqui há duas horas". Os comentários refletem uma queixa comum entre homens: o medo de serem vistos como assediadores ao abordar mulheres. Em redes sociais, bares e festas, muitos afirmam que "hoje tudo é assédio". Diante disso, Yuri passou a produzir conteúdos explicando, com humor, a diferença entre flerte e assédio. Entre as orientações dadas aos seus 343 mil seguidores estão respeitar o "não" e evitar insistência ou constrangimento. A advogada Marina Ganzarolli afirma que o discurso de que "tudo virou assédio" ganhou força com as redes sociais e reflete resistência às mudanças nas relações de gênero. Segundo ela, faltam referências de masculinidade que não estejam ligadas ao controle ou à insistência. A psicanalista Luciana Saddi diz que muitos homens se sentem desorientados diante das mudanças sociais, mas ressalta: ignorar limites não é ingenuidade.
Já a psicóloga Mayumi Kitagawa afirma que homens temem rejeição enquanto mulheres avaliam riscos e formas de proteção. "Os medos coexistem, mas não são equivalentes", diz. Para ela, o flerte continua existindo, mas exige adaptação. A reciprocidade é essencial: ausência de resposta ou hesitação já indicam um "não". Homens ouvidos pela reportagem relatam insegurança nas abordagens. O empresário Rafael Almeida, 29, afirma que o medo da exposição pesa, enquanto Ícaro Gouveia, 28, diz evitar elogios mais diretos. O advogado Eduardo Martins, 29, acredita que o discurso de que "tudo virou assédio" muitas vezes mascara medo de rejeição. Especialistas explicam que o flerte começa antes da fala, na leitura de sinais verbais e corporais. Quando há reciprocidade, a interação continua; quando há insistência após recusa, deixa de ser flerte. O assédio envolve comportamento invasivo, insistente ou constrangedor que causa desconforto ou intimidação. A legislação prevê crimes como stalking, importunação sexual, assédio sexual, ameaça, constrangimento ilegal e violência psicológica contra a mulher.
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