Você ficaria surpreso com o estado das notas de dólar na Argentina, diz Alejandro Lamas, vendedor de carros usados que se tornou especialista em identificar cédulas — até falsas — pelo toque. A habilidade segue essencial décadas depois de iniciar no ramo. Isso porque o plano do presidente Javier Milei de atrair dólares para bancos enfrenta forte resistência popular. Quase 25 anos após o “corralito”, quando depósitos em dólar foram convertidos à força em pesos desvalorizados, a desconfiança persiste. Assim, muitos argentinos ainda preferem guardar dólares em espécie para emergências ou grandes compras. “Os governos já fizeram de tudo —como confiar?”, questiona Lamas. Estima-se que cerca de US$ 170 bilhões estejam fora do sistema financeiro. Trazer parte desse dinheiro aos bancos poderia impulsionar a economia e sustentar o crescimento prometido por Milei. Apesar do apoio de investidores internacionais, os depósitos cresceram menos de US$ 1 bilhão desde fevereiro. O governo tenta atrair recursos flexibilizando regras e prometendo menos fiscalização. Ainda assim, argentinos compram cerca de US$ 2 bilhões por mês em dólares, podendo chegar a US$ 6 bilhões em períodos de crise.
Parte significativa é mantida em casa, cofres ou no exterior. A cultura de guardar dinheiro fora do banco é tão forte que até notas antigas têm valor diferenciado. As “cara chica” (notas antigas de US$ 100) circulam com desconto no mercado informal. Comerciantes experientes sabem identificar falsificações com facilidade. “Você sente na hora”, diz Lamas. Marcelo Capobianco, açougueiro, afirma que o dólar é sua proteção em tempos de incerteza. “Ninguém poupa em pesos —se fizer isso, perdeu”, diz. A origem dessa desconfiança remonta à crise de 2001 e às sucessivas turbulências econômicas. A moeda local perdeu cerca de 99% do valor na última década. Mesmo assim, o governo insiste que o cenário atual é diferente. O ministro Luis Caputo defende que manter dinheiro em casa significa perda de valor. Campanhas como “Alivie Seu Colchão” tentam convencer a população. Os depósitos em dólar chegaram a cerca de US$ 40 bilhões. Economistas avaliam que o potencial é grande, mas a confiança levará tempo para ser reconstruída. Lamas deposita seus ganhos, mas entende o receio geral. “As pessoas ainda lembram do passado”, diz. Segundo ele, décadas de instabilidade só serão superadas com muitos anos de confiança consistente.
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