Nos bastidores do Vaticano, o caso Opus Dei é visto como uma pendência histórica. A organização recebeu, em 1982, um status único: o de prelazia pessoal, concedido por João Paulo 2º, o que lhe deu ampla autonomia dentro da Igreja Católica. Diferentemente das dioceses, a prelazia não se baseia em território, mas nas pessoas que a compõem, respondendo apenas ao seu prelado. Na prática, isso tornou o Opus Dei quase uma “igreja dentro da Igreja”, sem subordinação direta aos bispos locais. O privilégio foi mantido durante os pontificados de João Paulo 2º e Bento 16, ambos alinhados a posições conservadoras. Com a chegada do papa Francisco, o cenário mudou. Crítico de regimes de exceção, ele passou a questionar a autonomia do grupo e promoveu reformas. Entre 2022 e 2023, publicou documentos que rebaixaram o Opus Dei, retirando seu status de prelazia pessoal e transformando-o em associação clerical pública.
A instituição passou a responder ao Dicastério para o Clero, perdeu o direito automático de ter seu líder nomeado bispo e foi obrigada a apresentar relatórios anuais. O papel dos leigos também foi redefinido, com maior submissão às dioceses locais. Francisco exigiu ainda a atualização do estatuto da organização, processo que segue em andamento. Apesar da expectativa de alguns membros por mudanças sob o papa Leão 14, analistas consideram improvável uma reversão. Com cerca de 90 mil membros no mundo, majoritariamente leigos, o Opus Dei enfrenta agora o fim de um ciclo de privilégios e a adaptação a uma estrutura mais alinhada à hierarquia tradicional da Igreja.
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