O governo britânico quer preparar a população para possíveis graves perturbações e para a eventualidade de uma guerra. Entre as medidas estão estoques de água e alimentos e o fortalecimento da resiliência civil. O Reino Unido também trabalha na atualização de seu chamado “livro de guerra”, abandonado há décadas. O chefe da Defesa, Richard Knighton, considera o atual período o mais perigoso de seus 35 anos de carreira. Apesar disso, a possibilidade de tanques russos nas ruas de Londres é considerada pequena, mas a principal preocupação está em ameaças assimétricas, como ataques cibernéticos e sabotagens de infraestrutura. A historiadora Margaret MacMillan afirma que os britânicos não estão psicologicamente preparados para uma guerra e observa que a sociedade se acostumou a considerar a paz como uma condição permanente. Especialistas comparam o momento atual ao período anterior à Primeira Guerra Mundial. Em 1914, muitos europeus acreditavam que uma eventual guerra seria rápida e vitoriosa, mas a experiência da Primeira Guerra Mundial, deixou profundas marcas na sociedade britânica. Um em cada oito homens britânicos que se alistaram morreu nos campos de batalha e o conflito mudou a percepção europeia sobre a guerra e eliminou sua antiga imagem de aventura gloriosa. Segundo o acadêmico Andrew Michta, vários países europeus reduziram suas capacidades militares após o fim da Guerra Fria. Ele afirma que o Reino Unido também ficou pouco preparado, inclusive no aspecto psicológico.
A dependência europeia da energia russa é apresentada como exemplo dessa percepção equivocada sobre a segurança. Para o general aposentado Richard Shirreff, a invasão russa da Ucrânia em 2014 marcou uma mudança decisiva. Segundo ele, a Rússia passou a representar uma ameaça persistente à segurança ocidental. Os defensores de maior gasto militar argumentam que estar preparado pode ajudar a evitar uma guerra. O psicólogo Jim Orford, porém, alerta para o risco de simplificar excessivamente a visão sobre ameaças e inimigos e considera que a Europa já entrou em uma fase de contemplação da possibilidade de guerra. A percepção da ameaça varia entre os países europeus, sendo maior nas nações próximas da Rússia. A Suécia abandonou sua histórica neutralidade depois da invasão russa da Ucrânia em 2022, daí porque mantém um sistema de alistamento parcial e treinamento militar de até 15 meses. A população sueca também participa de iniciativas de preparação para possíveis crises. As repúblicas bálticas reforçaram suas defesas devido à proximidade e à experiência histórica com a Rússia. A Finlândia é apontada como exemplo de preparação psicológica e de resiliência civil. Após 2022, os finlandeses também abandonaram sua neutralidade e ingressaram na Otan e mantém alistamento masculino universal e uma grande força de reservistas treinados. A Finlândia consegue mobilizar rapidamente cerca de 280 mil militares. Em 2025, destinou 2,5% do PIB à defesa, enquanto o Reino Unido gastou 2,3%. O modelo finlandês integra militares, população civil, empresas e instituições em planos de emergência. Líderes políticos e dirigentes de organizações recebem treinamento anual para administrar situações de crise. Especialistas defendem que o Reino Unido poderia ampliar sua preparação e capacidade militar. Shirreff cita o modelo norueguês de alistamento e treinamento como uma possível referência e defende que os líderes expliquem claramente à população os riscos e as medidas necessárias. O debate europeu combina aumento dos gastos militares, preparação civil e preocupação com possíveis ameaças russas. A questão central é como preparar as sociedades para crises sem transformar a possibilidade de guerra em uma certeza.
