Enquanto ataques de Israel e dos Estados Unidos castigavam o Irã, aliados do país no cenário internacional não chegaram a um consenso sobre como reagir. Brasil, China e Rússia condenaram rapidamente a ofensiva militar contra Teerã, que passou a integrar o Brics há dois anos. A Índia, que preside o bloco em 2026, adotou postura diferente: evitou criticar os bombardeios e condenou apenas as ações retaliatórias iranianas na região. A África do Sul também foi cautelosa, manifestando preocupação com o conflito sem citar países, possivelmente para evitar atritos com Washington. Chamou atenção a ausência de uma declaração conjunta do Brics, evidenciando dificuldades do grupo em reagir de forma unificada. A situação levanta dúvidas sobre a capacidade do bloco de construir uma nova ordem mundial sem alinhamento político entre seus membros. Criado em 2009, o Brics busca ampliar a influência das grandes economias emergentes no cenário global. Diferentemente da Otan, o grupo não prevê cooperação militar nem compromissos de defesa entre os integrantes. Sua agenda sempre foi majoritariamente econômica, incluindo o banco de desenvolvimento do bloco e iniciativas para ampliar o comércio entre os países. Nos últimos anos, porém, o Brics passou a se apresentar como contrapeso à hegemonia dos Estados Unidos e do Ocidente. Nesse contexto, ampliou sua composição para incluir Irã, Egito, Etiópia, Indonésia e Emirados Árabes Unidos. A expansão, no entanto, trouxe membros com interesses geopolíticos distintos, dificultando consensos. O cenário se agravou quando mísseis e drones iranianos atingiram os Emirados Árabes Unidos, também integrante do grupo. Além disso, o conflito ameaça rotas comerciais estratégicas e a segurança energética de vários países do bloco.
Para analistas, essas divergências enfraquecem a ideia de ação conjunta entre os membros. Especialistas afirmam que nenhum país do Brics deve apoiar militarmente o Irã em um eventual conflito. Para Teerã, o bloco funciona principalmente como alternativa econômica e mercado para seu petróleo. O grupo já enfrentou dificuldades semelhantes em crises anteriores. Em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, o Brics evitou condenação direta e pediu apenas diálogo. Situação semelhante ocorreu quando ataques de Israel e EUA ao Irã geraram apenas uma nota moderada do bloco. Agora, diante de nova escalada, o silêncio coletivo reforça dúvidas sobre sua coesão. Analistas avaliam que o Brics ainda busca definir qual papel pretende desempenhar na política internacional. A crise também expõe os limites de uma aliança baseada apenas em cooperação econômica. Isso ocorre num momento em que os Estados Unidos utilizam tarifas e sanções como instrumentos geopolíticos. A Índia, por exemplo, já reduziu compras de petróleo iraniano e russo para evitar punições americanas. O país também recuou de projetos estratégicos no Irã diante da ameaça de sanções. Para especialistas, a geopolítica passou a influenciar diretamente as relações comerciais entre os membros. Se pretende desafiar a influência ocidental, o Brics terá de lidar com questões políticas e militares. Caso contrário, essas divergências podem se tornar obstáculos ao fortalecimento do bloco no cenário global.
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