A crise climática afeta diretamente a vida das populações, destruindo casas, comprometendo a renda, interrompendo estudos e dificultando o acesso a serviços básicos. Enchentes e ondas de calor representam riscos maiores para quem vive em condições precárias ou trabalha ao ar livre. Os efeitos das mudanças climáticas são mais severos entre os grupos vulneráveis, que dispõem de menos recursos para se proteger, adaptar-se e reconstruir suas vidas. Segundo o Banco Mundial, os eventos climáticos podem levar de 800 mil a 3 milhões de brasileiros adicionais à pobreza extrema até 2030. Durante encontros da São Paulo Climate Week, realizados em agosto no Civi-co, representantes de diferentes setores discutiram como construir respostas mais eficazes à emergência climática. Uma questão central foi a participação das comunidades diretamente afetadas. Universidades, empresas, governos e organizações sociais produzem conhecimentos e desenvolvem estratégias, mas os saberes das populações vulneráveis nem sempre são considerados nas decisões. Lideranças comunitárias conhecem as áreas sujeitas a enchentes, identificam moradores que precisam de ajuda e sabem quais soluções já foram experimentadas. Da mesma forma, habitantes de regiões atingidas pela seca desenvolvem práticas para administrar a água e preservar a produção. Esses conhecimentos não substituem a ciência, mas podem complementá-la e contribuir para políticas de adaptação mais eficientes. O próprio Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) reconhece a importância de integrar conhecimentos científicos e locais, valorizando também as experiências de povos indígenas, quilombolas, moradores de periferias e comunidades tradicionais.
Nesse contexto, a tecnologia social pode ajudar a desenvolver soluções coletivas, construídas com a participação dos próprios territórios. Em vez de simplesmente levar projetos prontos às comunidades, é necessário criar metodologias que integrem diferentes experiências e permitam ampliar iniciativas bem-sucedidas. Para isso, é fundamental estabelecer uma aliança entre especialistas, lideranças comunitárias, empresas, governos, universidades, empreendedores e investidores. O objetivo não é criar mais uma rede de colaboração, mas aproximar as que já existem, compartilhar conhecimentos, mobilizar recursos e evitar que boas iniciativas permaneçam isoladas. Essa articulação pode conectar quem possui conhecimento a quem dispõe de recursos, aproximar desenvolvedores de soluções das populações que precisam delas e incluir a experiência dos moradores nas decisões públicas. A experiência do Civi-co demonstra que encontros entre setores diferentes podem gerar novas possibilidades. Empresas podem encontrar organizações sociais com conhecimentos capazes de transformar suas estratégias; investidores podem apoiar empreendedores que desenvolvem soluções para problemas estruturais; e pesquisadores podem testar suas descobertas em parceria com as comunidades. Também é possível aproximar gestores públicos de iniciativas que já apresentam resultados concretos nos territórios. O desafio, portanto, não é começar do zero, mas conectar e fortalecer o que já existe. A crise climática é ambiental, porém suas consequências são profundamente sociais. Por isso, o enfrentamento precisa considerar as desigualdades e garantir atenção especial às populações sem acesso adequado à água, à moradia segura e à alimentação. Ignorar essas necessidades significa correr o risco de desenvolver soluções que beneficiem apenas os grupos que já dispõem de melhores condições de vida.

