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sexta-feira, 24 de julho de 2026

SAIU NA FOLHA DE SÃO PAULO

Thomas L. Friedman

Editorialista de política internacional do New York Times desde 1995, foi ganhador do prêmio Pulitzer em três oportunidades

SALVAR ARTIGOS

Thomas L. Friedman

Trump, Netanyahu e Putin tropeçam em guerras sem saída por pura vaidade

  • Todos os conflitos terminarão em negociações, porque nenhum desses líderes pode sustentar suas ações bélicas estúpidas
  • Ao se cercarem de bajuladores e ignorarem conselhos de especialistas, eles vão precisar achar novas rotas de fuga

 


THE NEW YORK TIMES

Donald Trump, Binyamin Netanyahu e Vladimir Putin são homens drasticamente diferentes, mas têm uma coisa importante em comum: cada um acredita ser a pessoa mais inteligente em qualquer sala em que entra.

Infelizmente, porém, como todos cometeram o erro mais estúpido que um líder pode cometer —cercar-se de bajuladores—, todos tropeçaram em guerras sem saída das quais só podem se livrar hoje engolindo um banquete de sapos.

Fique atento. Não há nada mais perigoso do que um líder imprudente diante de um prato de sapos: às vezes, seu instinto é dobrar a aposta em uma estratégia perdedora.

Três cartazes com caricaturas de Donald Trump, Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu exibidos em protesto ao ar livre. Cada cartaz tem a palavra 'WANTED' em vermelho no topo e o nome do líder abaixo da caricatura. Pessoas sentadas no gramado seguram cartazes vermelhos com a palavra 'STOP' e texto em japonês.
Manifestantes erguem caricaturas do presidente dos EUA, Donald Trump, do presidente da Rússia, Vladimir Putin, e do premiê israelense, Binyamin Netanyahu, em Tóquio -  Philip Fong - 3.mai.2026/AFP

Comecemos pelo primeiro-ministro israelense. O sinal de que Bibi perdeu o rumo —e levou consigo a liderança da famosa agência de inteligência israelense, o Mossad— se reflete em duas decisões absolutamente insanas que ele tomou: a primeira é que Israel poderia derrubar o regime de Teerã com um grande golpe aéreo, e a segunda era que poderia escolher o novo líder do Irã.

O Mossad é muito bom em caçar e matar os inimigos de Israel, em grande parte porque é muito habilidoso em recrutar cidadãos descontentes no Líbano, no Irã, na Cisjordânia e em outras partes do mundo árabe —ou seja, pessoas que odeiam seus regimes e estão dispostas a trabalhar com Tel Aviv para derrubá-los.

O problema é que esses mesmos agentes, motivados por ressentimento ou dinheiro, tendem a exagerar o quão fraco é seu regime e o quão fácil seria derrubá-lo. 

Isso explica por que, após a reunião na Casa Branca em fevereiro, quando Netanyahu e o então diretor do Mossad, David Barnea, essencialmente argumentaram que, se Israel e os Estados Unidosassassinassem os principais líderes do Irã, o regime cairia e pessoas moderadas assumiriam, Trump não os expulsou da sala às gargalhadas.

O presidente aparentemente presumiu que, como o Mossad tinha superpoderes de assassinato, também tinha superpoderes analíticos e, portanto, o Irã cairia em seu colo da mesma forma que a Venezuelaquando os EUA capturaram seu ditador, Nicolás Maduro.

Como meus colegas Maggie Haberman e Jonathan Swan relataram em seu livro imperdível, "Regime Change", o diretor da CIA, John Ratcliffe, usou uma palavra para descrever os cenários de mudança de regime no Irã de Netanyahu: "farsescos". Trump, confiante de que sabia mais, ignorou-o e aos outros —e vem pagando o preço desde então.

O sinal ainda maior de que tanto Netanyahu quanto sua agência de inteligência ficaram embriagados de poder foi outra história incrível que o New York Times descobriu: que o Mossad estava preparando o ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad para assumir o Irã após o regime do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, ser eliminado.

Como meus colegas relataram: "A decisão de Israel de construir um plano de mudança de regime em torno de Ahmadinejad é uma reviravolta extraordinária na saga das relações do país com o ex-presidente, que era conhecido por acelerar o programa nuclear do Irã, pedir regularmente a destruição de Israel e negar o Holocausto".

Homem de terno escuro levanta a mão direita em gesto de saudação ou juramento, com a mão esquerda sobre o peito, em frente a um púlpito com vários microfones. Ao fundo, bandeira do Irã em tela verde, branca e vermelha.
O ex-presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, acena após registrar sua então candidatura à eleição presidencial do país, em Teerã -  Atta Kenare - 2.jun.24/AFP

A pura loucura de Israel pensar que poderia instalar Ahmadinejad —e que o corpo político iraniano não o rejeitaria da mesma forma que um corpo humano rejeita um transplante de órgão— é insana.

Netanyahu e o Mossad realmente acharam que iranianos orgulhosos e nacionalistas, mesmo aqueles que odeiam os clérigos que os governam, diriam: "Ah, obrigado, Bibi, por instalar nosso próximo líder"? A vaidade e o excesso de ambição em pensar que 7,2 milhões de judeus israelenses poderiam decidir quem governaria mais de 90 milhões de muçulmanos iranianos é espantosa.

Trump e Netanyahu estão em boa companhia com Putin, que bebeu de seu próprio veneno ao presumir que os ucranianos estavam todos morrendo de vontade de fazer parte da Mãe Rússia novamente e que o governo democraticamente eleito em Kiev cairia facilmente.

"O erro mais fundamental de Putin foi acreditar em sua própria narrativa de que ucranianos e russos eram 'um só povo' e que a independência ucraniana era meramente uma construção artificial do Ocidente", observou Robbin Laird, analista militar, no ano passado. "Esse ponto cego ideológico o levou a esperar que as forças russas seriam recebidas como libertadoras."

Em um eco perfeito do que aconteceu no Irã, a inteligência russa parece ter confiado demais "em fontes pró-Putin que diziam a Moscouo que ela queria ouvir", disse Laird, "em vez de fornecer informações precisas sobre o sentimento e as capacidades ucranianas".

Netanyahu, apesar de todas as suas vitórias táticas sobre o Hamas, o Hezbollah e Teerã, não converteu nenhuma delas em uma nova realidade estratégica para Israel. Isso exigiria que ele deixasse claro que suas operações militares na Faixa de Gaza, no Líbano e no Irã tinham como objetivo tornar a região segura para uma paz israelense-palestina.

Em vez disso, o que o mundo inteiro vê é Netanyahu tentando tornar a região segura para uma anexação israelense da Cisjordânia, e estando pronto para jogar fora todo o resto —normalização com a Arábia Saudita, o apoio de muitos jovens americanos, o apoio do Partido Democrata, o apoio da Europa Ocidental e a independência do Judiciário de Israel— para consegui-lo.

Enquanto isso, Trump enfraqueceu e isolou os Estados Unidos ao escolher preguiçosamente invadir o Irã sem aliados, sem legitimação internacional e sem Plano B para eliminar a capacidade de Teerã de construir uma arma de destruição em massa.

Em vez disso, Trump permitiu que o Irã descobrisse duas armas de perturbação em massa incrivelmente baratas e eficazes: controlar o estreito de Hormuz e bombardear os aliados americanos no Golfo Pérsico quase toda vez que Trump bombardeia o Irã.

E Putin —em vez de fazer o trabalho árduo de transformar a Rússia em uma sociedade livre e aberta que os ucranianos realmente pudessem achar atraente— transformou o que era uma democracia russa frágil em um estado policial completo, com uma economia petrolífera vulnerável.

Hoje, Moscou não aparece em lugar nenhum na revolução da inteligência artificial. É como se os carros tivessem acabado de ser inventados e Putin dissesse que preferia investir em mais cavalos —e em sua fantasia do século 19 de uma Mãe Rússia unificada.

O que temos hoje são três líderes tentando bombardear seu caminho para fora de um beco sem saída.

Mas não nos esqueçamos dos líderes tortuosos, cínicos e incompetentes que lideram o Irã desde 1979. Eles também estão em seu próprio beco sem saída.

Em vez de empoderar sua população talentosa, os ditadores clericais do Irã escolheram se entrincheirar no poder por 47 anos fuzilando oponentes, enfiando o islamismo puritano goela abaixo de seu povo e desperdiçando bilhões de dólares tentando destruir Israel.

Resumindo, eventualmente todos esses conflitos terminarão em negociações, porque nenhum desses líderes pode sustentar suas guerras estúpidas indefinidamente. A única questão é quando eles terão que chamar o garçom e dizer: "Moço, você poderia me trazer um prato de sapos, por favor"

EUA IMPÕEM NOVA TARIFA DE 12,5% SOBRE PRODUTOS BRASILEIROS


EUA impuseram ontem, 23, uma nova tarifa de 12,5% sobre produtos brasileiros, elevando a carga total para até 37,5% em alguns itens, somadas às sobretaxas anunciadas na semana passada. Washington justificou a medida afirmando que o Brasil não possui mecanismos suficientes para impedir a entrada de produtos feitos com trabalho forçado em sua cadeia de importação. Outros 58 países e a União Europeia também foram atingidos. Especialistas, porém, questionam a decisão por falta de provas concretas de mercadorias brasileiras produzidas com trabalho escravo vendidas nos EUA. Além disso, setores brasileiros com maior histórico de casos de trabalho análogo à escravidão, como café e pecuária, ficaram fora das principais sobretaxas. A investigação foi conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana. Para analistas, a iniciativa atende também a interesses econômicos e geopolíticos, como proteger a indústria americana, reforçar a política tarifária e ampliar a pressão sobre parceiros comerciais. Especialistas afirmam ainda que a medida integra a estratégia dos EUA de conter a influência da China nas cadeias globais de produção.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) destaca que o Brasil é referência internacional no combate ao trabalho escravo, embora reconheça lacunas no monitoramento de fornecedores estrangeiros. O país não possui legislação específica que obrigue empresas a verificar se produtos importados foram fabricados com trabalho forçado. O Ministério Público do Trabalho defende uma lei de devida diligência para ampliar a rastreabilidade das cadeias produtivas. O governo brasileiro rejeitou as conclusões americanas, afirmando que não há base factual para as tarifas. Segundo Brasília, barreiras comerciais não combatem o trabalho escravo e apenas elevam custos para empresas e consumidores. O Itamaraty sustenta que o enfrentamento do problema exige cooperação internacional, fiscalização e troca de informações, e não medidas unilaterais. O chanceler Mauro Vieira afirmou que a decisão reflete divergências mais amplas nas negociações entre os dois países e anunciou reação com base na Lei da Reciprocidade. 

TRUMP RECUA E RETIRA INTIMAÇÕES DE JORNALISTAS


O Departamento de Justiça dos EUA retirou ontem, 23, as intimações que exigiam registros telefônicos de jornalistas do The New York Times envolvidos em reportagens sobre a segurança do novo Air Force One, doado pelo Qatar ao presidente Donald Trump. 
A decisão ocorreu após o juiz federal Arun Subramanian questionar, por quase uma hora, a legalidade das medidas adotadas pelo governo. O magistrado afirmou que intimações contra jornalistas devem ser o último recurso e cobrou o cumprimento das normas que regulam investigações envolvendo a imprensa. O New York Times havia recorrido à Justiça para anular as intimações, classificando a iniciativa como uma tentativa de intimidar seus repórteres. O caso ganhou repercussão por integrar a ofensiva do governo Trump contra veículos de imprensa independentes. As intimações foram emitidas depois que Trump demonstrou irritação com a divulgação de informações sobre o novo avião presidencial. Em seguida, a Casa Branca determinou que o diretor do FBI, Kash Patel, investigasse o vazamento para identificar as fontes do jornal.

Durante a audiência, o juiz deu ao governo a opção de retirar voluntariamente as intimações ou vê-las anuladas pela Justiça. Após uma pausa para negociação, os promotores anunciaram a retirada das medidas. Mesmo assim, Subramanian esclareceu que o governo poderá emitir novas intimações no futuro, desde que siga os procedimentos legais previstos. O Departamento de Justiça criticou a postura do juiz, enquanto a Casa Branca não comentou o caso. 

"IA" ELEVA A INFLAÇÃO


A ex-secretária do Tesouro dos EUA e ex-presidente do Fed, Janet Yellen, afirmou que a inteligência artificial está elevando a inflação, e não reduzindo-a. Em painel no Expert XP, ela explicou que o forte investimento em IA impulsiona a demanda por semicondutores e eletricidade, pressionando preços e dificultando cortes de juros pelo Fed. Segundo Yellen, os ganhos de produtividade prometidos pela IA ainda não apareceram de forma significativa, embora alguns setores já sintam seus efeitos. Ela comparou o momento atual ao início da expansão da internet nos anos 1990. A economista também destacou que a recente escalada do conflito entre EUA, Irã e os houthis elevou o preço do petróleo em mais de 7%, acima de US$ 100 por barril, criando um novo choque de oferta e prolongando as pressões inflacionárias.

Na avaliação de Yellen, o Fed deve manter os juros estáveis enquanto aguarda a redução desses impactos, mas está preparado para voltar a elevá-los caso a guerra se intensifique e a inflação acelere. Ela comentou ainda a decisão do presidente do Fed, Kevin Warsh, de criar cinco forças-tarefa para revisar a atuação do banco central, uma delas com supervisão do ex-presidente do Banco Central brasileiro Arminio Fraga. Para Yellen, revisões externas podem contribuir, embora o próprio Fed já avalie continuamente seus processos. 

MOBILIDADE URBANA PESA PARA MULHERES


Mobilidade urbana afeta todos nas grandes cidades, mas pesa mais sobre as mulheres, especialmente as moradoras das periferias. É o que mostra a tese de doutorado da UFF, A (i)mobilidade das mulheres no cotidiano urbano, da pesquisadora Clarisse Cunha Linke. O estudo revela que o modelo de urbanização do Rio ampliou a distância entre periferias e áreas centrais, onde se concentram os empregos, agravando desigualdades. Além de enfrentar ônibus e trens lotados, atrasos, tarifas elevadas e longos congestionamentos, as mulheres acumulam responsabilidades domésticas e de cuidado. Seus deslocamentos são mais complexos, envolvendo creches, compras, cuidados com familiares e trabalho, exigindo trajetos múltiplos e flexíveis. Empregadas domésticas, por exemplo, acordam de madrugada, fazem várias baldeações e caminham longas distâncias para chegar ao serviço. O medo também faz parte da rotina: assaltos, violência, tiroteios e assédio sexual durante as viagens. Relatos de importunação dentro dos transportes revelam um ambiente de insegurança constante.

Embora existam medidas como vagões exclusivos para mulheres, elas não resolvem as causas do problema. A pesquisa destaca que a deficiência do transporte público se soma à falta de calçadas, iluminação, sinalização e segurança nos bairros. Diante dessas dificuldades, muitas mulheres recorrem a vans e mototáxis para conseguir cumprir suas atividades diárias. A autora defende que políticas de mobilidade considerem as necessidades femininas, priorizando segurança, acessibilidade, circulação nos bairros, caminhabilidade e tarifas mais justas para reduzir as desigualdades urbanas.