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quarta-feira, 3 de junho de 2026

IA NO MERCADO DE LIVROS


O avanço da inteligência artificial generativa está transformando o mercado de livros independentes, ampliando a produção de títulos, reduzindo custos e acelerando lançamentos. Em plataformas como o Kindle Direct Publishing, da Amazon, proliferam obras criadas com auxílio de IA, muitas vezes sem identificação clara, o que levanta dúvidas sobre qualidade e transparência. Desde 2023, a Amazon exige que autores informem o uso de IA na criação de conteúdos e limita a publicação simultânea de títulos. Mesmo assim, editoras e entidades do setor afirmam que os catálogos seguem repletos de obras automatizadas. Na França, associações de editores acusaram a Amazon de induzir consumidores ao erro ao comercializar livros produzidos por inteligência artificial. Enquanto parte do mercado critica a prática, outros defendem o uso da tecnologia. O CEO da Barnes & Noble, James Daunt, afirma que livros escritos por IA podem ser vendidos, desde que tenham qualidade. A vencedora do Nobel de Literatura, Olga Tokarczuk, revelou usar IA para pesquisas e desenvolvimento de ideias, mas não para redigir textos finais. No Brasil, o designer Vicente Pessôa, desclassificado do Prêmio Jabuti em 2023 após admitir o uso de IA em ilustrações de “Frankenstein”, passou a incorporar a tecnologia em praticamente todas as etapas de sua editora. Segundo ele, a ferramenta ajuda a manter custos baixos e ampliar a produtividade.

A plataforma de autopublicação UIClap registrou crescimento de 250% no número de novos títulos mensais, passando de 2.000 para 7.000 obras em um ano. Também cresce o uso de IA na produção de ebooks, cursos e materiais digitais. Por outro lado, editoras relatam problemas de qualidade. Flávia Portela, da editora Lacre, afirma descartar cerca de 70% dos originais recebidos por apresentarem sinais evidentes de geração artificial, com enredos repetitivos e personagens superficiais. Ela também relata falhas em revisões e capas produzidas com auxílio de IA. Escritores demonstram preocupação com a banalização da atividade literária. Já especialistas defendem limites éticos, especialmente em áreas sensíveis como saúde e medicina, onde informações incorretas podem representar riscos reais. A tecnologia também tem sido usada para divulgação de obras. Os chamados “book trailers” ajudam autores a ampliar alcance nas redes sociais com baixo investimento. A escritora baiana Mima Cobaltini relatou aumento expressivo de leitores após adotar a estratégia. Em maio, a Câmara Brasileira do Livro lançou um manual de boas práticas que defende a IA como ferramenta de apoio, nunca como substituta da criação humana. A entidade também alerta para riscos relacionados a direitos autorais, falta de regulamentação e possível perda de referências culturais brasileiras em conteúdos produzidos por sistemas treinados com padrões estrangeiros. 

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