Santa Catarina é o estado da federação que legou ao Brasil algumas de suas mais importantes expressões literárias negras. Entre elas estão Cruz e Sousa, fundador do simbolismo brasileiro, Luiz Delfino, Gustavo de Lacerda, Antonieta de Barros e Ildefonso Juvenal da Silva, figuras centrais da cultura, da política e do pensamento nacional. Esse legado contrasta com a recente decisão do governador Jorginho Mello (PL), que sancionou lei proibindo a adoção de cotas raciais nas universidades públicas do estado. Em resposta a ação de inconstitucionalidade movida por PSOL, UNE e EducaAfro, o governador afirmou ao STF que Santa Catarina possui a maior proporção de população branca do país. Os dados apresentados, atribuídos ao IBGE, estão incorretos. O Censo 2022 aponta que 76,3% da população catarinense se autodeclara branca, enquanto 23,3% se declara preta ou parda. O Rio Grande do Sul, inclusive, tem proporção maior de brancos.
Além disso, o mesmo censo revela desigualdades persistentes: trabalhadores brancos recebem, em média, 25% a mais que negros no estado. Negros também relatam maior incidência de violência policial e enfrentam baixa representatividade em cargos de comando e maior precarização no mercado de trabalho. Diante desse cenário, o governo estadual poderia apoiar iniciativas como o Projeto Ìbátan, o Movimento Negro Unificado de SC e o Núcleo de Estudos Negros, que atuam no resgate histórico, na educação e no combate ao racismo. A leitura de Negros em Florianópolis, de Fernando Henrique Cardoso, ajudaria a relembrar a dívida histórica ainda ignorada. Cabe ao governo abandonar o discurso da exceção e assumir um compromisso real com reconhecimento, justiça e reparação.
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