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terça-feira, 16 de abril de 2024

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SANTA DULCE DOS POBRES

Eu vi, vivi e abracei a nova Santa da Igreja Católica. Concebi na irmã Dulce o prolongamento da figura de minha mãe, Rita, falecida em 1950, deixando cinco filhos, o mais velho, eu, com sete anos; situação semelhante, em um aspecto, ocorreu com a irmã Dulce que perdeu a mãe aos sete anos. Algumas vezes estive no hospital Santo Antônio, devoção de minha mãe que sempre festejou e hoje mantemos a tradição, na cidade de Santana, Oeste da Bahia. 

Encontrei, abracei e protegi em pequena caminhada, no Retiro de São Francisco, o Anjo Bom da Bahia, no longínquo ano de 1990. Eu e minha esposa, Maria Eurly, adoramos a proximidade, ainda que momentânea, com aquela que se torna a única Santa brasileira; nunca imaginamos que um dia, aquela franzina mulher, cheia de energia, seria Santa da Igreja Católica. 

Irmã Dulce passou dois anos enclausurada, na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, no Convento de Nossa Senhora do Carmo, em São Cristóvão/SE; aí prestou seus votos como freira, e voltou para Salvador em 1934. Sua primeira atividade foi na limpeza e na portaria do Hospital Espanhol, onde se tornou enfermeira; daí foi para a área educacional ensinar numa escola na cidade baixa e só então dedicou-se à assistência social aos pobres. 

As obras sociais da Santa tiveram inicio, em 1940, no conjunto de favelas dos Alagados, onde havia muita pobreza. Em 1949, com autorização de sua superiora, ocupa um galinheiro, ao lado do Convento Santo Antônio, abrigando no espaço 70 doentes e daí não mais saiu; suas obras concentraram-se no largo de Roma, mas a freira não abandonou os pobres dos Alagados, e em toda Salvador; através de sua interferência as palafitas tornaram-se conjuntos habitacionais dos bairros de Massaranduba, Uruguai e Jardim Cruzeiro. 

Recentemente, depois da morte da freira, foi inaugurado um centro de atendimento à comunidade, em Alagados, conhecido como “terra santa”, onde são distribuídas sopa, acompanhamento de jovens grávidas, catequese para crianças, além de prevenção de doenças. A denominação de "terra santa” deve-se à irmã Dulce, às visitas ao local de Madre Teresa de Calcutá e João Paulo II. 

Depois de muita luta, as OSIDs prestam atendimento ambulatorial, anualmente, a mais de 3.5 milhões de pessoas pobres e sua sobrinha Ana Rita comanda o acervo deixado pela freira. A entidade criada pela Santa tornou-se um dos maiores prestadores de serviço para a saúde dos pobres, 100% gratuito, mantendo-se por meio de repasses do Sistema Único de Saúde, SUS, convênios estatais, venda de produtos e doações de empresas e pessoas físicas. 

O Anjo Bom da Bahia não tinha limites para a busca de recursos para seu trabalho social; aproximou-se dos presidentes desde Eurico Dutra, em 1948, que veio a Bahia para inaugurar uma estrada e visitou a nova sede do Círculo Operário, construído pela freira que lhe pediu ajuda para quitar dívidas da obra instalada; a Irmã tinha um porto seguro no ex-presidente José Sarney, que em conversa com Norberto Odebrecht disse-lhe: “Aquela mulher é uma santa, Norberto. O que ela pedir eu dou", segundo relatado por Graciliano Rocha, na biografia “Santa Dulce dos Pobres”. Apesar dos relacionamentos com os políticos, Irmã Dulce nunca pediu voto para ninguém.

Irmã Dulce encontrou com a figura lendária, um “cabra” do grupo de Lampião: Antônio dos Santos, o Vida Seca, que estava, no presídio Engenho da Conceição, conhecido na época como a Penitenciária da Coreia. Vida Seca era um sanguinário e foi condenado a 145 anos, pena reduzida para 20 anos, mas, em 1952, recebeu indulto do presidente Getúlio Vargas. A freira dedicava ao Círculo Operário da Bahia e fazia visitas semanais ao presídio, levando sua sanfona e tocando para os detentos, no pátio; carregava remédios para os presos. Osvaldo Gouveia, da assessoria de Memória e Cultura das OSIDs, dizia que “ela usava o lúdico como instrumento de regeneração. Buscava resgatar a dignidade dos presos com a música". Em 1954, sem maiores explicações, a Irmã Dulce foi impedida de frequentar a Penitenciária da Coreia, segundo noticiário do jornal A Tarde.

A cerimônia, neste 13 de outubro, presidida pelo Papa Francisco, no Vaticano, com a presença de muitos brasileiros, entroniza Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, nascida no ano da primeira guerra mundial, em 1914. Foi a terceira canonização mais rápida da Igreja: Papa João Paulo 2º, canonizado 9 anos após sua morte; Madre Terezza de Calcutá, 19 anos e irmã Dulce, 27 anos. A irmã Dulce, todos sabemos, doou sua vida para proteger e ajudar aos doentes e aos pobres; no plano material, sua herança mais sagrada situa-se nas Obras Sociais, as OSIDs, que se vê no bairro de Roma, próximo do Bonfim.

Irmã Dulce passsou por dissabores na sua peregrinação de ajudar aos pobres; em Salvador, onde nasceu e viveu por 77 anos, ela visitava as pequenas empresas em busca de doações, mas teve o desconforto de receber uma cusparada de um comerciante, quando estendeu as mãos para receber a oferenda que buscava.

A Igreja reconheceu dois dos inúmeros milagres da Santa: em 2001, em Sergipe, as orações à freira provocaram a suspensão de uma hemorragia em Cláudia Cristina dos Santos, que sofreu por 18 horas, antes do nascimento de seu segundo filho; em 2014, o maestro José Maurício Moreira, que estará presente no Vaticano, teve os nervos óticos deteriorados e começou a preparar com cursos de braile e tarefas domésticas sem a visão; em 2000 perdeu completamente a visão e assim ficou por 14 anos; no final de 2014, a dor de uma conjuntivite viral fez lembrar da Irmã Dulce, devoção de seus pais; colocou uma imagem da Irmã sob os olhos, objetivando aliviar a dor da conjuntivite, porque a visão ele não esperava recuperar; no dia seguinte acordou vendo nuvens esfumaçadas até recuperar totalmente a visão. Os médicos afastaram explicação técnica para os dois fatos, que foram reconhecidos como milagres.

O Memorial da Irmã Dulce dispõe de mais de 13 mil bilhetes, e-mails, cartas e registros em livros originados do Brasil e de outros países, a exemplo de Argentina, Uruguai, Espanha, Itália: um homem dado como morto, diante de uma trombose cerebral, de repente se recupera; a mulher desenganada pelos médicos, sem explicação técnica, retorna ao convívio dos familiares ou a infecção generalizada de uma criança que é curada sem atuação médica. 

Salvador, 11 de outubro de 2019.

Antonio Pessoa Cardoso

Pessoa Cardoso Advogados. 

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