
O programa econômico de Javier Milei, na Argentina, é apresentado pelo bolsonarismo como modelo para o Brasil, mas seus resultados revelam graves problemas. A eleição presidencial brasileira será decidida no segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro, após nenhum candidato obter maioria absoluta. O campo bolsonarista defende a experiência argentina, ignorando as diferenças entre os dois países e os custos sociais das medidas adotadas. Quando Milei chegou ao poder, a Argentina enfrentava inflação anual de 211%, enquanto a brasileira gira em torno de 4,6%. No Brasil, os desafios incluem elevar a renda dos trabalhadores, criar empregos de qualidade e reduzir os juros para estimular investimentos. O programa de Milei baseou-se em três pilares: eliminar o déficit primário, controlar a inflação pelo câmbio e reduzir o tamanho do Estado. Para equilibrar as contas, o governo cortou investimentos em infraestrutura, ciência e universidades, além de reduzir o valor real de salários públicos e aposentadorias. Ao mesmo tempo, diminuiu impostos dos mais ricos e concedeu benefícios fiscais a grandes investimentos, especialmente no setor de commodities. Essa estratégia não pode ser reproduzida facilmente no Brasil, que apresenta inflação muito menor e enfrenta problemas fiscais ligados principalmente aos elevados juros da dívida. Milei prometeu reduzir drasticamente a inflação, impulsionar investimentos e recuperar a antiga prosperidade econômica argentina. Entretanto, a inflação caiu menos do que o esperado e permanece elevada, acumulando 33,5% em 12 meses. Parte desse resultado depende de um câmbio valorizado, sustentado por empréstimos internacionais e pela ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI). A dívida argentina com o organismo alcançou US$ 57 bilhões, comprometendo a autonomia econômica do país e aumentando sua dependência financeira. Desde a posse de Milei, os salários reais caíram quase 8%, enquanto o desemprego aumentou de 5,7% para 7,9%. A informalidade também cresceu, com trabalhadores desempregados buscando ocupações de baixa remuneração no setor de serviços.
O endividamento das famílias aumentou, e a inadimplência atingiu 12,8% dos empréstimos bancários, contra 4,5% um ano antes. Cerca de seis milhões de argentinos enfrentam dificuldades para pagar suas dívidas, evidenciando o agravamento da situação financeira das famílias. O consumo e os investimentos recuaram, enquanto a retração do crédito prejudicou a atividade econômica e o setor financeiro. O Produto Interno Bruto (PIB) caiu 0,6% no segundo trimestre, e a atividade econômica recuou 2,9% em julho. As projeções indicam possibilidade de nova contração, ameaçando colocar a Argentina em recessão técnica. A fragilidade do modelo também apareceu em 2025, quando duas crises cambiais obrigaram o governo a buscar socorro externo. O FMI concedeu um empréstimo de US$ 20 bilhões, enquanto o Tesouro americano interveio posteriormente para sustentar o peso. Sem esse apoio, a moeda poderia perder valor e provocar nova aceleração inflacionária. A dependência financeira ampliou a influência dos Estados Unidos sobre a política econômica argentina.Embora tenha reduzido parcialmente a inflação, Milei deixou uma economia fragilizada, trabalhadores com menos oportunidades e maior endividamento externo. O Brasil, que quitou sua dívida com o FMI em 2005, preserva maior independência financeira e deve evitar comprometer essa condição. Brasil e Argentina, principais economias do Mercosul, precisam buscar desenvolvimento produtivo, inovação e diversificação econômica. Enquanto uma proposta prioriza o fortalecimento da produção e do mercado interno, a outra pode ampliar a dependência de commodities e do apoio americano. Assim, a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro envolve não apenas o futuro democrático, mas também a independência econômica e a prosperidade do Brasil.
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