A crescente atuação dos Estados Unidos na América Latina entrou no radar das instituições brasileiras às vésperas das eleições. A Advocacia-Geral da União (AGU) pediu à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal investigação sobre possível financiamento americano.
O alvo são iniciativas de extrema-direita no Brasil que poderiam ter recebido recursos do governo Donald Trump. A notícia-crime foi assinada pelo advogado-geral da União, Jorge Messias. O documento foi encaminhado ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. A AGU quer identificar responsáveis e organizações brasileiras eventualmente beneficiadas por recursos estrangeiros. O pedido se baseia em reportagem do jornal britânico The Guardian sobre mudanças no financiamento americano. Segundo a publicação, recursos destinados a direitos humanos e democracia teriam sido direcionados para uma agenda conservadora. Entre os programas citados está uma iniciativa de US$ 1 milhão contra o chamado lawfare e a censura no Brasil. O projeto questiona supostos excessos do Judiciário, especialmente do Supremo Tribunal Federal (STF).
Para a AGU, é necessário esclarecer se dinheiro estrangeiro foi usado para influenciar o ambiente político brasileiro. O órgão citou princípios constitucionais como soberania, independência e não intervenção e destacou restrições legais ao financiamento estrangeiro de organizações políticas no Brasil. A iniciativa ocorreu apenas três dias antes do primeiro turno da eleição presidencial. A possibilidade de interferência externa já provocava atritos entre os governos de Brasil e Estados Unidos.
O governo Trump adotou medidas econômicas e diplomáticas contra o Brasil e criticou integrantes do STF. No mesmo contexto, o ex-presidente colombiano Gustavo Petro acusou Washington de pressionar governos progressistas da região. Petro afirmou haver uma ofensiva contra instituições e forças políticas de esquerda na América Latina. Ele relacionou a atuação americana à crise política na Bolívia e falou em ameaça à democracia. A declaração ocorreu após a prisão do procurador-geral boliviano Roger Mariaca que é acusado pelas autoridades bolivianas de envolvimento com lavagem de dinheiro e narcotráfico. O procurador nega as acusações e afirma que o caso possui motivações políticas. Washington havia revogado anteriormente o visto de Mariaca e de outras autoridades bolivianas. As acusações de Petro sobre uma operação coordenada dos EUA não foram comprovadas de forma independente.
No Brasil, também não há comprovação de financiamento americano de organizações políticas ou ações ilegais. É justamente essa possibilidade que a AGU quer esclarecer por meio das investigações. Petro também citou diretamente as eleições brasileiras e pediu articulação regional contra manipulações digitais. Ele defendeu ações contra perfis falsos, bots e uso de inteligência artificial na disputa política. O colombiano mencionou especificamente o combate a conteúdos digitais contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O caso amplia o debate sobre soberania, influência estrangeira e uso de recursos externos nas eleições brasileiras.
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