domingo, 22 de março de 2026

MÉDICOS SEM EMPREGO


“Eu mando mensagem para todo mundo e não consigo trabalho.” A médica Ana Paula Hilgemberg, 25, formou-se há três meses pela PUC-PR com financiamento estudantil e enfrenta dificuldade para conseguir plantões em Curitiba. 
Ao ingressar no curso, acreditava em altos rendimentos na medicina, estimando ganhos mensais de até R$ 40 mil, o que justificaria o investimento. Com poucos plantões, ficou sem previsão de renda e voltou a trabalhar com marketing e produção de conteúdo para pagar dívidas. Ela disputa vagas com milhares de novos médicos que entram no mercado todos os anos. Em 2025, o número de médicos cresceu em 35,9 mil, chegando a 635,7 mil, recorde histórico segundo a Demografia Médica da USP. De 2020 a 2024, foram 154,8 mil novos profissionais, alta de 32%. Já as faculdades saltaram de 143 (2004) para 448 (2024). A concentração de médicos nas capitais agrava a disputa por vagas e dificulta conseguir plantões. Nas redes sociais, a concorrência virou piada, com profissionais deixando “pego” pronto para responder rapidamente em grupos. Alice Moraes relata que vagas são preenchidas em minutos; Tais Martins diz que desaparecem em segundos. Sem oportunidades, muitos dependem de apoio de terceiros, o que gera frustração. O Brasil tem 2,98 médicos por mil habitantes, acima de países como EUA, mas abaixo da média da OCDE (3,70). A distribuição desigual agrava o problema: capitais concentram profissionais, enquanto o interior carece deles.

Em São Paulo, são 6,8 médicos por mil habitantes na capital; em Belo Horizonte, 9,98. Especialistas apontam que expectativas criadas por faculdades nem sempre se concretizam. Médicos jovens resistem a trabalhar no interior por questões pessoais e familiares. A residência médica tornou-se praticamente obrigatória para melhores oportunidades. O mercado para generalistas está mais restrito e exige especialização. Porém, há falta de vagas: estudantes cresceram 71% (2018-2024), enquanto residentes aumentaram apenas 26%. Quase metade das residências está no Sudeste, com forte concentração em São Paulo. Hospitais como Sírio-Libanês e Oswaldo Cruz não contratam médicos sem especialização. Relatos indicam dificuldades até de contato com contratantes e casos de atraso ou falta de pagamento. Há grupos informais para alertar sobre locais que não pagam plantões. A remuneração inicial também caiu: plantões chegam a R$ 700 por 12 horas em algumas regiões. Apesar disso, a renda média médica foi de R$ 36,8 mil em 2022, muito acima da média nacional. Especialistas avaliam que há pleno emprego, mas com excesso de profissionais em grandes centros. A qualidade da formação também preocupa: 32% dos cursos avaliados tiveram desempenho insatisfatório. A tendência é de crescimento contínuo, com previsão de 1,15 milhão de médicos no Brasil até 2035.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário